Aug 19, 2026
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Cáncer de Próstata

Custo-efetividade da orquiectomia como modalidade de tratamento em pacientes com câncer de próstata avançado.

Um estudo publicado no Journal of Global Oncology por Fernando Sabino Marques Monteiro analisou o impacto econômico do tratamento do câncer de próstata metastático sensível à castração no sistema público de saúde do Brasil. A maioria dos pacientes recebe castração química, que é muito mais dispendiosa do que a orquiectomia bilateral. A análise demonstrou que, se a castração cirúrgica tivesse sido utilizada em todos os casos, o sistema poderia ter economizado mais de 620 milhões de dólares em 11 anos, recursos que poderiam ser destinados a ampliar o acesso a terapias inovadoras, como a abiraterona. O estudo destaca a importância das análises farmacoeconômicas para otimizar recursos e melhorar o acesso a tratamentos em países de renda média.

Custo-efetividade da orquiectomia como modalidade de tratamento em pacientes com câncer de próstata avançado.

O recente artigo publicado no Journal of Global Oncology por Fernando Sabino Marques Monteiro, MD, PhD, e colaboradores contextualiza os tratamentos para o câncer de próstata metastático sensível à castração (CPSCm) em uma população com baixo acesso a terapias, como o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro.

Neste sistema, são atendidos aproximadamente 71.730 pacientes com CP a cada ano, para os quais a terapia de privação de andrógenos (TPA) é o tratamento primário para CPSCm. Os inibidores da via do receptor de andrógenos (ARPI) não são acessíveis através do SUS. Utilizando o SUS como modelo, este estudo avalia o efeito econômico a longo prazo da castração cirúrgica versus a castração médica no tratamento do CPSCm, visando desenhar estratégias de redução de custos e incorporação de ARPI em países em desenvolvimento.

Foram analisados dados de pacientes com CPSCm da base de dados do SUS de 1º de janeiro de 2011 a 31 de dezembro de 2021. Dos 274.519 pacientes com CPSCm que receberam tratamento ativo durante o período de estudo de 11 anos, 90% (n = 246.683) foram submetidos à castração química e 10% (n = 27.836) foram submetidos à orquiectomia subcapsular bilateral (BSO).

A duração média da castração química foi de 28 meses. O SUS gastou um total estimado de 665.552.091,40 dólares americanos (USD) em castração química e 5.939.348,47 USD em BSO, respectivamente. O custo por paciente foi de 2.698 USD e 213,37 USD para a castração química e a BSO, respectivamente.

Hipoteticamente, se todos os pacientes com CPSCm tivessem sido submetidos à BSO, o custo direto total para o SUS teria sido de 42.774.832,20 USD, economizando 622.777.259,20 USD em 11 anos, o que tornaria possível oferecer abiraterona em doses baixas a 65% dos pacientes com CPSCm.

Com base nesta extensa análise financeira da base de dados do maior sistema público de saúde do mundo, a BSO parece ser uma alternativa valiosa à castração química para o tratamento do CPSCm.

A análise farmacoeconômica apresentada no artigo é de grande interesse, particularmente pelo seu foco meticuloso na avaliação da relação entre custos e benefícios na assistência médica. Este tipo de estudo tem um valor incalculável ao servir como modelo para ser replicado em diferentes países da América Latina, adaptando-se às particularidades de cada sistema de saúde, às realidades econômicas locais e aos custos negociados para produtos farmacêuticos e procedimentos médicos.

A cobertura de saúde na América Latina é diversa, oscilando entre sistemas universais e modelos fragmentados. Esta variabilidade influencia diretamente a acessibilidade e os custos assumidos pelos pacientes e pelos Estados, destacando a necessidade de realizar análises contextuais. Um modelo baseado neste artigo poderia fornecer ferramentas críticas para identificar lacunas na

cobertura, otimizar recursos e garantir a sustentabilidade financeira em cada sistema de saúde.

O artigo traz um exemplo fundamental ao analisar a orquiectomia como uma opção custo-efetiva frente à castração química para o manejo do câncer de próstata avançado. A orquiectomia, apesar de ser um procedimento cirúrgico invasivo, representa uma alternativa de menor custo e com resultados clínicos comparáveis a longo prazo em termos de controle da doença, em contraposição ao uso prolongado de análogos, que aumenta consideravelmente os custos em saúde.

Esta abordagem destaca a relevância de priorizar intervenções que, além de eficazes, possam aliviar a carga financeira tanto para os sistemas de saúde quanto para os pacientes. Esta constatação reforça a importância de incluir este tipo de avaliação nas decisões clínicas e de política sanitária.

Além disso, o artigo sublinha a importância de avaliar custos com o objetivo de ampliar o acesso a terapias inovadoras, muitas das quais estão transformando a prática clínica habitual. Estes tratamentos, embora geralmente impliquem custos iniciais mais elevados, podem reduzir significativamente o impacto econômico a longo prazo por meio de melhorias nos resultados de saúde, na qualidade de vida e na produtividade dos pacientes.

Esta análise não é apenas uma referência valiosa, mas também um chamado à ação para os sistemas de saúde da região. Implementar avaliações econômicas rigorosas e personalizadas poderia ser a chave para alcançar uma cobertura mais equitativa e sustentável, maximizando os benefícios clínicos e sociais das inovações médicas, ao mesmo tempo em que se otimizam estratégias custo-efetivas, como a incorporação adequada de procedimentos como a orquiectomia.

Autor desta publicação:

Dra. Noelia Silveyra

Professora Adjunta de Oncologia Médica na UdelaR. Responsável pela área de uro-oncologia da Unidade Acadêmica de Oncologia.

Dra. Noelia Silveyra

Dra. Noelia Silveyra

Oncologista clínico

Professor Adjunto de Oncologia Médica na UDelar. Responsável pela área urooncológica da Unidade Acadêmica de Oncologia.